Manus AI: O Que Muda Após a Separação da Meta

A China desfez a compra bilionária, a Tencent assumiu e usuários perderam dados. O que essa virada ensina sobre depender de um agente de IA.

por Cleverson Gouvêa

Ilustração de agente de IA autônomo Manus AI executando tarefas em várias telas

O Manus AI voltou a operar como empresa independente em 11 de agosto de 2026, depois que o governo chinês obrigou a Meta a desfazer uma aquisição bilionária. Entre 23 e 24 de agosto, parte dos usuários teve dados apagados de forma permanente. Se você usa agentes de IA no seu negócio, esse episódio é um estudo de caso caro — e vale entender antes de apostar todas as fichas em um fornecedor.

Acompanho agentes autônomos desde que eles saíram do laboratório e entraram na operação: aqui na Agathas Web integramos provedores de modelos em projetos reais de clientes, e já tivemos que trocar de fornecedor no meio do caminho mais de uma vez. Vou separar os fatos verificáveis do barulho e mostrar o que a saga do Manus AI ensina sobre dependência de plataforma.

TL;DR

  • O Manus AI anunciou em 11 de agosto de 2026 o retorno à operação independente, após a China vetar a compra pela Meta.
  • Dados gerados por usuários afetados a partir de 29 de dezembro de 2025 foram apagados permanentemente entre 23 e 24 de agosto de 2026 (horário de Singapura), com portal de restauração a partir de 25 de agosto.
  • A Tencent, ao lado das gestoras HSG e ZhenFund, comprou a fatia da Meta e se tornou a maior acionista da empresa.
  • O produto continua forte: o Manus AI executa tarefas de várias etapas sozinho, e a versão 1.6 Max trouxe desenvolvimento mobile e edição de imagem.
  • A lição prática não é "não use o Manus AI" — é nunca deixar o seu processo depender de um único fornecedor e tratar LGPD antes, não depois.

O que é o Manus AI e por que ele virou febre

O Manus AI é um agente de IA de propósito geral criado pela Butterfly Effect, empresa fundada por Xiao Hong em 2022 — dois meses antes do ChatGPT ir ao ar. A mesma equipe já havia lançado o Monica, uma extensão de navegador que agregava vários modelos de linguagem comerciais.

O lançamento do Manus AI aconteceu em 6 de março de 2025, em beta fechado por convite. O vídeo de demonstração passou de 1 milhão de visualizações em 20 horas. O motivo do estardalhaço: em vez de responder perguntas como um chatbot, o Manus AI executa. Ele abre arquivos, navega na web, roda código, monta planilhas e entrega o resultado pronto — sem alguém aprovando cada passo.

Chatbot responde, agente age

A diferença é operacional, não semântica. Um chatbot devolve texto e você faz o trabalho. Um agente recebe um objetivo ("triagem destes 80 currículos segundo estes critérios, me devolva um ranking justificado") e produz o artefato final. É a mesma mudança que descrevi no artigo sobre agentes de IA e o que o Gemini Spark muda para empresas: o gargalo deixa de ser a redação e passa a ser a supervisão.

Nos números divulgados pela própria empresa no lançamento, o Manus AI marcou 86,5% no nível 1 do benchmark GAIA, 70,1% no nível 2 e 57,7% no nível 3 — à frente do Deep Research da OpenAI à época. Vale a ressalva de sempre: benchmark divulgado pelo fabricante é marketing técnico, não auditoria independente.

A cronologia da compra que a China desfez

Esse é o ponto que mais interessa a quem contrata software. A linha do tempo do Manus AI abaixo reúne os fatos com data, sem adjetivo.

Data Fato
6 mar 2025 Manus é lançado em beta por convite
Abr 2025 Série B de ~US$ 75 milhões, avaliação de US$ 500 milhões
Meados de 2025 Sede migra de Pequim/Wuhan para Singapura
Ago 2025 Receita anualizada chega a ~US$ 90 milhões
Dez 2025 Receita anualizada em US$ 125 milhões; Meta anuncia a compra por US$ 2–3 bilhões
29 dez 2025 Data que a Manus aponta como marco da aquisição pela Meta
Jan–abr 2026 Ministério do Comércio da China investiga a operação
27 abr 2026 A NDRC (Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma) veta o negócio
15 jun 2026 Meta corta oficialmente os laços
11 ago 2026 Manus anuncia o retorno à operação independente
23–24 ago 2026 Janela de exclusão permanente de dados dos usuários afetados

Não foi briga comercial nem falta de dinheiro. Foi decisão regulatória de Estado: Pequim proibiu investimento estrangeiro na dona do Manus AI para manter a empresa sob controle doméstico, e a Meta escolheu não comprar essa briga.

Os dados apagados: quem foi atingido e o que fazer agora

Aqui está a parte que dói. Como parte do desmembramento, o Manus AI apagou permanentemente os dados gerados por determinados usuários a partir de 29 de dezembro de 2025 — a data que a empresa aponta como o marco da aquisição pela Meta. A medida atingiu usuários enquadrados em exigências regulatórias de certas jurisdições, não a base inteira.

O calendário oficial, no fuso de Singapura (SGT), foi:

  1. Backup gratuito disponível de 11 a 23 de agosto de 2026, até as 07h59.
  2. Exclusão a partir das 08h de 23 de agosto, seguindo até 24 de agosto — com a conta inacessível nesse intervalo.
  3. Portal de restauração liberado a partir das 08h de 25 de agosto, com bônus de créditos como compensação.

A armadilha do login social

Um detalhe operacional do aviso do Manus AI passou batido: quem entrava na plataforma com Apple ID ou conta do Facebook podia simplesmente não receber o e-mail de aviso, porque a empresa não necessariamente tinha o endereço real. O alerta ficava só dentro do aplicativo.

Isso é um lembrete prático para qualquer ferramenta crítica que você usa: cadastre um e-mail corporativo próprio, nunca um login social pessoal. Se a notificação de um evento irreversível depende de um canal que você não controla, você não tem controle nenhum.

Tencent no comando: o que muda no risco geopolítico

A Tencent, junto com as gestoras chinesas HSG e ZhenFund, comprou a participação que era da Meta e se tornou a maior acionista da dona do Manus AI. O valor total ficou próximo do que a Meta havia pago. O Manus AI segue com base em Singapura, mas o capital de controle voltou a ser chinês.

Para uma agência ou empresa brasileira, isso não é um julgamento moral — é uma variável de risco. Fornecedor sob jurisdição sensível significa: possibilidade de mudança de termos por decisão regulatória externa, incerteza sobre onde os dados residem e risco de sanções cruzadas que interrompem o serviço sem aviso.

Não é exclusividade da China. Já vimos empresas americanas mudarem preços e políticas de um dia para o outro. A diferença é que, no caso do Manus AI, a mudança foi imposta por um governo, não pelo mercado — e o usuário final descobriu pelo e-mail.

O que o Manus AI faz bem hoje

Deixando a novela societária de lado, o produto do Manus AI amadureceu. A versão 1.6, com o agente Max, é a mais capaz da linha. Segundo o anúncio oficial da empresa:

  • Max: arquitetura de planejamento mais avançada, com mais tarefas concluídas em uma única tentativa sem intervenção humana. Em teste duplo-cego, a satisfação relatada subiu mais de 19,2%.
  • Desenvolvimento mobile: dá para descrever um aplicativo e receber o projeto ponta a ponta, complementando o que já existia para web.
  • Design View: um canvas interativo para editar imagens por ponto e clique, trocar texto dentro da imagem e compor várias imagens.
  • Wide Research: subagentes rodando em paralelo, todos agora na arquitetura Max, para pesquisas amplas com mais profundidade.
  • Planilhas: é onde o Manus AI se sai particularmente bem — modelagem financeira e relatórios automatizados.

Em março de 2026 o Manus AI também ganhou um aplicativo desktop, levando o agente para dentro do computador do usuário. É o mesmo movimento de outras plataformas agênticas que já analisei aqui, como no texto sobre o Google Antigravity 2.0 e a IDE agêntica.

Onde ele ainda derrapa

Tarefa longa com muitas dependências externas continua sendo o calcanhar de Aquiles de qualquer agente, e o Manus AI não escapa: quando um site muda de layout ou uma API responde diferente, o agente insiste no caminho errado e queima recursos. Por isso a supervisão humana em pontos de checagem não é opcional.

Manus AI: quanto custa o modelo de créditos

Os planos públicos do Manus AI são Free, Pro e Team, e a documentação oficial direciona à equipe comercial em vez de listar valores. Levantamentos independentes de 2026 reportam uma faixa de US$ 0 (com créditos diários limitados) a US$ 200/mês nos planos mais altos, com cobrança anual dando desconto e todos os planos pagos incluindo renovação diária de créditos e execução de várias tarefas em paralelo.

O detalhe que quebra orçamento não é a mensalidade — é o consumo. Análises de terceiros reportam que uma tarefa complexa consome de 500 a 900 créditos por execução. Traduzindo: um plano que parece generoso no papel pode cobrir poucas dezenas de tarefas pesadas por mês.

O que observar Por que importa
Preço por crédito, não por mês A mensalidade é âncora de marketing; o custo real é por tarefa
Custo médio da SUA tarefa Rode 5 tarefas reais antes de assinar e meça o consumo
Retentativas Agente que erra e tenta de novo cobra de novo
Portabilidade da saída Se o resultado não sai em formato aberto, você paga para sair

A recomendação prática é a mesma que dou para qualquer ferramenta por consumo: rode um piloto pago de um mês com tarefas reais antes de embutir a ferramenta em um processo do qual você não consegue mais sair.

LGPD: o risco que a demonstração não mostra

Aqui mora o problema jurídico. Quando um funcionário cola dados de clientes em um agente hospedado fora do Brasil, três coisas acontecem ao mesmo tempo: compartilhamento com terceiro, transferência internacional de dados pessoais e possível descumprimento do dever de segurança do art. 46 da LGPD. A responsabilidade recai sobre o controlador — ou seja, a sua empresa, não o fornecedor.

A ANPD publicou em 23 de agosto de 2024 a Resolução CD/ANPD nº 19/2024, que aprovou o Regulamento de Transferência Internacional de Dados e o conteúdo das cláusulas-padrão contratuais. O período de adequação terminou em 23 de agosto de 2025. Desde então, transferir dados pessoais para um processador no exterior sem cláusulas-padrão, cláusulas específicas aprovadas, regras corporativas vinculantes ou outro mecanismo previsto é irregular.

O que isso significa na prática

Se a sua equipe usa o Manus AI para triagem de currículos, análise de planilhas de vendas ou atendimento, existe dado pessoal circulando. Três providências mínimas:

  1. Mapeie quais ferramentas de IA já estão em uso — a maioria das empresas descobre um punhado de assinaturas pessoais rodando fora do radar.
  2. Formalize o contrato com cláusulas-padrão da ANPD ou mecanismo equivalente, e registre a base legal do tratamento.
  3. Restrinja por política: dado sensível e dado de cliente identificável não entram em ferramenta pública sem anonimização.

Como escolher um agente sem virar refém dele

A saga do Manus AI é um argumento a favor de arquitetura, não contra a ferramenta. Alguns critérios que aplico em projeto de cliente — e que valem para o Manus AI ou para qualquer concorrente:

  • Exportação de dados nativa. Se não dá para baixar tudo em formato aberto por conta própria, é sinal vermelho.
  • Camada de abstração. Prenda o seu processo a uma interface interna, não à API de um fornecedor. Trocar de modelo deve ser uma linha de configuração.
  • Fallback declarado. Antes de ir para produção, escreva em uma página o que acontece se o fornecedor sumir amanhã.
  • Residência de dados conhecida. Você precisa saber em que país o dado é processado — e ter isso no contrato.
  • Custo por tarefa medido. Não por assento, não por mês: por tarefa realmente executada.
  • Log de auditoria. Sem rastro do que o agente fez, não há como responder à ANPD nem ao cliente.

O ponto de partida é aceitar que agentes vão trocar de dono, de preço e de política. Como mostrei no texto sobre demissões e a aposta em agentes na Atlassian, o mercado está reorganizando processos inteiros em torno dessas ferramentas — o que aumenta o custo de escolher errado.

Como tratamos isso na Agathas Web

Nos projetos que entrego, a integração com IA nunca fica pendurada em um provedor único. O padrão é uma camada própria que fala com o modelo — hoje pode ser um, amanhã outro — enquanto o processo do cliente, os prompts e os dados continuam sob o guarda-chuva dele. Já precisei migrar de provedor no meio de um projeto por mudança de preço, e o custo foi baixo justamente por causa dessa separação.

Também insisto em uma coisa chata: dado de cliente não sai do ambiente controlado sem que exista contrato e base legal. É menos glamouroso do que uma demo de agente autônomo, mas é o que evita uma notificação da ANPD depois. Se você está desenhando automação com agentes, esse é o tipo de decisão que precisa vir antes da escolha da ferramenta, não depois.

Conclusão: o que fazer nos próximos 30 dias

O Manus AI segue sendo um dos agentes autônomos mais capazes do mercado, agora com controle acionário chinês e operação em Singapura. Nada disso o desqualifica — mas escancara que a camada de agentes é instável, e que a estabilidade tem que vir da sua arquitetura, não da promessa do fornecedor.

Se eu tivesse 30 dias e um orçamento apertado, faria nesta ordem: mapear as ferramentas de IA em uso na equipe, exportar hoje os dados de qualquer plataforma crítica, medir o custo real por tarefa em um piloto e só então formalizar contrato e política de uso. Nessa ordem — o inverso é como se descobre o problema tarde demais.

Se quiser discutir como blindar uma automação com agentes na sua operação, é exatamente esse tipo de arquitetura que desenhamos aqui na Agathas Web.

Perguntas frequentes

O que é o Manus AI e para que ele serve?

O Manus AI é um agente de inteligência artificial de propósito geral criado pela Butterfly Effect e lançado em 6 de março de 2025. A diferença para um chatbot é que ele não devolve apenas texto: recebe um objetivo, planeja as etapas e executa. Na prática, isso significa navegar na web, abrir e cruzar arquivos, rodar código, montar planilhas, gerar páginas e entregar o artefato final. Os usos mais comuns nas empresas são pesquisa ampla de mercado, modelagem financeira em planilha, relatórios automatizados, triagem de documentos e protótipos de aplicações web e mobile. A supervisão humana continua necessária em pontos de checagem, principalmente em tarefas longas que dependem de sites e APIs externas.

Meus dados no Manus AI foram apagados? Dá para recuperar?

A exclusão atingiu apenas usuários enquadrados em exigências regulatórias de certas jurisdições, e não a base inteira. Foram apagados permanentemente os dados gerados a partir de 29 de dezembro de 2025, a data que a empresa aponta como marco da aquisição pela Meta. O calendário oficial, no fuso de Singapura, previu backup gratuito até as 07h59 de 23 de agosto de 2026, exclusão entre 23 e 24 de agosto, com a conta inacessível, e portal de restauração a partir das 08h de 25 de agosto, com bônus de créditos. Se você não fez o backup na janela, o conteúdo daquele período não volta. Quem entrava com Apple ID ou Facebook corria risco extra de não receber o aviso por e-mail.

Quem controla o Manus AI depois da saída da Meta?

A Tencent, ao lado das gestoras chinesas HSG e ZhenFund, comprou a participação que era da Meta e se tornou a maior acionista da empresa. O valor total ficou próximo do que a Meta havia pago pela aquisição anunciada em dezembro de 2025, avaliada entre US$ 2 e 3 bilhões. A operação segue sediada em Singapura, para onde a sede migrou em meados de 2025, mas o capital de controle voltou a ser chinês. O desfecho foi imposto por regulação: a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China vetou o negócio em 27 de abril de 2026, e a Meta cortou os laços em 15 de junho.

Usar o Manus AI com dados de clientes fere a LGPD?

Não é proibido, mas exige formalização. Quando dados pessoais saem para um processador no exterior, ocorre transferência internacional, regulada pela LGPD. A ANPD publicou em 23 de agosto de 2024 a Resolução CD/ANPD nº 19/2024, que aprovou o Regulamento de Transferência Internacional de Dados e as cláusulas-padrão contratuais, e o período de adequação terminou em 23 de agosto de 2025. Desde então, transferir sem cláusulas-padrão, cláusulas específicas aprovadas, regras corporativas vinculantes ou outro mecanismo previsto é irregular. A responsabilidade é do controlador, ou seja, da sua empresa. O mínimo viável é mapear as ferramentas em uso, registrar a base legal, firmar as cláusulas e proibir por política a inserção de dado sensível sem anonimização.

Quanto custa o Manus AI e como funciona o consumo de créditos?

A documentação oficial lista os planos Free, Pro e Team sem publicar valores, direcionando à equipe comercial. Levantamentos independentes de 2026 reportam uma faixa que vai de US$ 0, com créditos diários limitados, até cerca de US$ 200 por mês nos planos mais altos, com desconto na cobrança anual e renovação diária de créditos nos planos pagos. O que costuma estourar o orçamento não é a mensalidade e sim o consumo: análises de terceiros indicam de 500 a 900 créditos por tarefa complexa, o que faz um pacote aparentemente generoso cobrir poucas dezenas de execuções pesadas. Antes de assinar, rode cinco tarefas reais da sua operação e meça o custo médio por tarefa.